08/03/2018

MULHERES DO RIO DOCE: EXISTEM, LUTAM E RESISTEM!

O rompimento da barragem de Fundão empreendeu uma transformação na vida de milhares de pessoas. E entre elas, estou eu.  Meus dias passaram a ser mais longos, o trabalho mais intenso e as experiências profundas. Esse universo, para mim novo, apresentou-me as mulheres do Rio Doce. A análise empírica do desastre remete a uma questão histórica de opressão e injustiças que cercam a figura da mulher. O processo de recuperação e compensação demonstra que o sofrimento acarretado à mulher nessa conjuntura vem em proporção muito maior.

Em contrapartida, as mulheres do Rio Doce são fortes. Mesmo com a múltipla jornada, são maioria nas reuniões, ocupam posição de liderança e exercem papel de extrema importância como agentes mobilizadores dos atingidos, organizando e incentivando a participação de todas e todos na luta pela efetivação dos seus direitos.

Elas exigem respeito e tratamento em igualdade de condições em relação aos atingidos. Mostram indignação quando são cadastradas como lavadeiras, porque muitas delas estão, na realidade, inseridas na cadeia de pesca. Não, elas não aceitam que o seu trabalho seja considerado assessório ou complementar ao do seu companheiro. Eu também não aceito. A sociedade não pode aceitar.

No desastre, há luta pela igualdade de gênero de direitos das mulheres, e há também um protagonismo das atingidas, compondo grupos e ocupando papéis de liderança de extrema importância para efetivação dos direitos das atingidas e atingidos.

Contudo, a prevalência dos homens nos espaços decisórios, tanto em relação às empresas quanto aos órgãos e instituições públicas, é notória e incomoda bastante a mim e as atingidas, pois enquanto mulher e defensora pública, em diversas ocasiões, fui a única figura feminina que ali estava, sendo exposta à falta de respeito ao direito de voz com interferências, até mesmo grosseiras e falas deslegitimadoras dos argumentos por mim trazidos pelo fato de ser mulher.

Em um Estado com altos índices de violência doméstica, as mulheres do Rio Doce ainda enfrentam aumento deste tipo de opressão, em razão dos reflexos psicológicos do desastre. Os homens, crescidos dentro desta cultura machista agressiva, perderam a sensação de utilidade que traz o trabalho. O ócio tomou conta das comunidades e o álcool e as drogas estão sendo a válvula de escape para muitos. E sobre quem recai essa fúria? Na mulher que resiste às violências para “manter o que restou do seu lar”.

As famílias que possuíam ligação com Rio Doce terão que se reinventar. Vislumbra-se oportunidade de reduzir a desigualdade de gênero enraizada em nossa sociedade. Essa mudança de postura deve vir de uma união de esforços. Empresas causadoras dos danos, Fundação Renova, órgãos públicos, Defensorias Públicas, Ministérios Públicos, Poder Judiciário, atingidos, atingidas, jornalistas. Todos e todas em uma corrente para que não haja nenhum direito a menos a estas mulheres atingidas, as quais devem ser respeitadas enquanto sujeitas de direitos autônomos em igualdade de condições com qualquer atingido pelo rompimento da barragem de Fundão. E se isso ocorrer, quem sabe, numa visão quase utópica, mas otimista, este não será o maior legado do desastre.

Mariana Andrade Sobral é defensora pública

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